escrita irregular
quarta-feira, outubro 25, 2006
  Dr. Peixinho
Chegavam ao balcão sozinhas. Muitas vezes vinham acompanhadas por familiares, ou pelos próprios namorados, ou só por amigos. A cara não escondia o receio, ou a vergonha, do julgamento por terceiros. As palavras saiam da boca a medo e quem as atendia já experientes, colocavam-nas à vontade. Uma consulta especial para o Dr. Peixinho, ou só uma consulta, sem nada de especialidades, era o código de abertura para as mãos do médico.
As adolescentes, ou um pouco mais velhinhas seguiam para uma sala de espera. Em principio não veriam ninguém, além do pessoal auxiliar. Por vezes, o tempo de espera era longo e lá entrava mais uma rapariga, acompanhada ou não, tornando o silêncio comprometedor. Ali a espera era diferente, ninguém ousava perguntar nada às outras, não por falta de simpatia mas, porque era arriscado e aborrecido falar-se do assunto. Bem, no fundo não havia nada a falar. O que interessava era terminar aquilo e sobretudo, fugir dali o mais depressa possível.
Quando se era chamada, as pernas tremiam; havia casos encaminhados para as urgências no hospital distrital, muitas vezes devido a semanas mal contadas e lá se ia o segredo, além dos problemas físicos associados.
No final, tudo correra bem. Os conselhos apropriados: relações só daqui a um mês, atenção à utilização de contraceptivos e o discurso ajustado das consultas de planeamento familiar para adolescentes. Um lugar democrata a troco de umas dezenas de contos.
Umas lágrimas finais, os nervos que explodiam após o sucedido.
Um recomeçar de vida, com a mágoa pessoal e um silêncio eterno sobre o assunto, porque a sociedade recrimina estes actos.
Até um dia.
 
Comentários:
em cada post que te leio fico deliciada com as tuas palavras.mesmo em assuntos tão complexos consegues sempre ser delicado e transportar-me para pensamentos positivos e válidos.espero que o Dr.Peixinho deixe de existir,para bem de tantas mulheres e de tantos filhos.
 
também eu me surpreendo mas se estou aqui é porque esta noite pensei em criar eu própria um blog. mas depois pensei "oh egozinho malandro, tem lá calma!". então os blogs não são uma forma de comunicação? e o objectivo de comunicar não é criar relação com o outro? então porquê esta necessidade de um BI virtual? seremos todos forçados a isso para nos darmos a conhecer aos outros sem termos que efectivamente "estar" com eles? quem somos nós aqui? o outro eu que não revelamos no mundo real?
mais um suporte verbal para as mensagens que não sabemos pronunciar. não menosprezando a escrita, é claro, de quem sabe escrever com a alma e neste caso, cristalina como eu gostaria que a minha voz fosse...
talvez seja apenas fruto de uma insónia ou mesmo de uma crise existencial que apenas uma rapariga do mundo ocidental se pode dar ao luxo de vivenciar. ou talvez não.
fico a pensar se também eu não preciso de um blog. volto ao princípio. EGO
 
gosto de te ter aqui prin.
não fujas para outro blog.
o teu ego fica bem na escrita irregular.
 
era eu!
 
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Abriu a 5 de Outubro de 2006.

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